Por Gabriela Alves

Localizado no centro da cidade de São Paulo, o Cine Bijou ou “cinema da arte” deixou sua marca na vida dos paulistanos, não apenas por ter sido um dos primeiros e mais importantes, mas também por sua grande influência sobre a sociedade.

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Desde a escolha de seu nome, é notável a valorização que recebe: Bijou, no dicionário Francês, significa “joia, obra de arte, maravilha”. O pequeno espaço que prestigiava a Praça Roosevelt – entre as populares ruas Augusta e Consolação – funcionou entre 1962 a 1996, e teve seu auge em 1960. O espaço consistia em uma sala pequena com um pouco mais de 100 poltronas. Em 1972, foi inaugurada a sala “Bijou-Sérgio Cardoso”, que permitiu uma maior acomodação.

Frequentado por estudantes, intelectuais, artistas e até mesmo militares de esquerda, em plena ditadura militar, era ponto de encontro de todo tipo de público por ser um cinema alternativo. Oferecia filmes críticos, independentes e diferenciados do circuito comercial, hoje nomeados “blockbusters”. O antigo dono do local, Francisco Coelho, diz no livro “Cine Bijou”, coedição do SESC SP, que mesmo em época de forte censura no país, o Bijou – por ser considerado totalmente cultural – exibia filmes que talvez em outros cinemas não fossem permitidos.

Foi ali que assisti aos melhores e aos piores filmes da minha juventude”. Allan Robert P. J., frequentador do Bijou nas décadas de 70 e 80

Na década de 1990, os espectadores se dispersaram e houve um gritante afastamento dos cinemas de rua, consequentemente, os preços dos ingressos sofreram redução por conta da baixa na demanda. O motivo foi principalmente a amplitude do consumo da TV e a forma como as emissoras foram se multiplicando, fazendo o cinema de rua perder seu espaço. No caso do Cine Bijou, além dessa mudança de hábito, os impasses da Praça Rossevelt ajudaram no afastamento dos fiéis cinéfilos: o tráfico de drogas e a prostituição se tornaram forte aos arredores e isso levou ao seu fechamento oficial em 1996.

De acordo com Allan Robert, frequentador do Bijou nas décadas de 70 e 80, a programação televisiva atraia o público de tal forma que os cinemas começaram a exibir sessões da meia-noite, logo após as transmissões da TV, que costumavam terminar por volta das 11 horas da noite. “Era comum sair do cinema às duas da madrugada e ir comer no ‘Bar das Putas’ na Consolação, esquina com a Rua Maceió”, lembra.

Em 1999, o Bijou reabriu como cinema e teatro, nomeado “Cine Teatro Recriarte Bijou”, e tinha uma programação selecionada dos sucessos de época. No início dessa reabertura, recebeu mais de 20 mil espectadores em um ano, mas, mesmo com o grande movimento de imediato, com o tempo, essa euforia foi diminuindo e as adaptações não foram o suficiente para se sustentar e, por fim, acabou sendo fechado outra vez. Depois de um tempo, precisamente em 2003, o lugar foi novamente reaberto, porém transformado em “Teatro do Ator”.

O cinema servia mais como reflexão sobre costumes que difusor de ideias.

Cine Bijou – Cinema e Memória
Quinzenalmente de 2010 a 2013, antigos frequentadores do Cine Bijou reuniram-se no local onde existia o cinema, que hoje é o “Teatro Studio 184”, para reproduções de filmes de sucesso da época e debates sobre a nuance da realidade brasileira e do resto do mundo. A ideia era ressaltar a importância do cinema de rua em São Paulo. Além desta iniciativa, eles formam o Núcleo de Preservação da Memória que ajuda a recortar histórias da capital antiga.

  • Sucessos da época:
    – Morangos Silvestres, dirigido por Ingmar Bergman
    – Indiana Jones, dirigido por Steven Spielberg
    – Exterminador do Futuro, dirigido por James Cameron
    – Laranja Mecânica, dirigido por Stanley Kubrick
    – Rambo, dirigido por Ted Kotcheff
  • Principais Cineastas:
    – Ingmar Bergman
    – Federico Fellini
    – Michelangelo Antonioni
    – Luis Bañuel
    -Stanley Kubrick

POEMA CINE BIJOU:
De Minás Kuyumjian Neto (Jornalista, escritor e poeta).
Você entra
hoje
de terno
e gravata
no Cine Bijou
à procura
da eterna
bravata
do I love you
e se senta
erecto
e circunspecto
sem perceber
que a poltrona
se assenta
– ancestral –
em plena zona
central
dos anos
sessenta.

Ninguém mais
se lembra
nestas alturas
das barbas
    sandálias
         posturas
politizadas
de quem trocava
os valores
dos pais
por outros amores
de desconforto:
utopias
especializadas
na raiz
do aborto
insuspeitado
de um novo
país.
Fonte: Portal Luis Nassif

 

 

 

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